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Como qualificar o debate público em um ano eleitoral

Em ano eleitoral, Cientista Político Araré Carvalho  analisa como a polarização, o uso distorcido da ideologia e as pautas morais esvaziam a discussão sobre políticas públicas e prejudicam a democracia.

Atualizado em 14/01/2026 às 11:01, por Prof. Dr. Araré Carvalho | Cientista Político.

Grupo diverso de pessoas reunidas em espaço aberto participa de um debate público. Ao centro, uma mulher e um homem conduzem a discussão em frente a uma lousa com o texto “Debate Público”, enquanto os demais participantes escutam, dialogam e apresentam propostas.

Cidadãos participam de um debate público ao ar livre, trocando ideias e discutindo propostas sobre temas de interesse coletivo, em um ambiente de diálogo e participação democrática. Imagem gerada com IA.

Anos eleitorais no Brasil costumam ser barulhentos e vertiginosos. O ambiente público se enche de promessas, acusações e de um ruído constante que frequentemente obscurece o que realmente importa. O desafio central para o eleitor e para quem participa do debate público é discutir política sem cair no terreno improdutivo das disputas ideológicas estéreis, que mais dividem do que esclarecem.

A ideologia, é preciso reconhecer, está presente em todas as visões de mundo. Negá-la seria ingenuidade. O problema não é sua existência, mas seu uso distorcido. Há a ideologia que contribui para o avanço social, estimulando o confronto de ideias e a construção de consensos mínimos. E há aquela que se converte em barreira, reduzindo a complexidade da realidade a antagonismos simplistas, do tipo “nós contra eles”, que paralisam o debate público.

Para que a política cumpra sua função democrática, o debate precisa se concentrar na esfera pública. Nesse ponto, o Brasil enfrenta um problema recorrente: a confusão deliberada entre o que é público e o que pertence à vida privada. A ciência política é clara ao definir seu objeto — as estruturas de poder, a organização do Estado, a distribuição de recursos e as políticas que afetam a coletividade. Ainda assim, temas ligados à intimidade individual acabam ocupando um espaço desproporcional no debate eleitoral.

Questões como orientação sexual, religião, costumes ou escolhas pessoais são frequentemente lançadas na arena pública como se fossem decisivas para o futuro do país. Enquanto isso, assuntos centrais para a vida da população ficam em segundo plano. Moradia, transporte, educação, saúde e segurança pública — temas que dizem respeito a todos os cidadãos — acabam ofuscados por uma agenda baseada no julgamento moral, e não na proposição de soluções.

Esse deslocamento do foco se intensifica a cada ciclo eleitoral, com a proliferação de pautas artificiais criadas para gerar pânico moral e mobilizar eleitores. Expressões como “ideologia de gênero”, “banheiros unissex” ou “perseguição religiosa” funcionam como espantalhos retóricos: propostas que raramente se materializam, mas que cumprem o papel de desviar a atenção dos problemas concretos. Já não é possível atribuir esse fenômeno apenas à imaturidade democrática; trata-se de uma estratégia recorrente que empobrece o debate público.

Diante desse cenário, dois critérios simples podem ajudar a qualificar a discussão política. O primeiro é objetivo: a proposta melhora, de forma concreta, a vida das pessoas? Amplia o acesso à moradia digna, à saúde, à educação, à segurança ou à renda? A política existe, em última instância, para organizar o coletivo em favor do bem-estar individual.

O segundo critério é democrático: a proposta fortalece a participação social, a transparência e a responsabilização dos governantes? Ou busca criar inimigos imaginários, silenciar divergências e concentrar poder por meio do medo?

Como não há consenso possível em pautas morais, que dizem respeito às convicções íntimas de cada indivíduo, o caminho mais racional é claro: cabe ao Estado garantir que cada pessoa possa viver conforme suas escolhas, desde que não viole direitos alheios nem o interesse público.

Com esse entendimento, o debate político pode se reorientar para aquilo que realmente une a sociedade: políticas públicas capazes de garantir dignidade, oportunidades e qualidade de vida. Separar o essencial do acessório não é apenas uma escolha retórica, mas uma condição necessária para fortalecer a democracia e tornar o processo eleitoral mais substantivo e responsável.